📅 10 out 2026

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PF investiga emenda de R$ 199,9 mil de Flávio Bolsonaro negociada com condenado no caso Marielle

foto: Sergio Lima/AFP

A Polícia Federal investiga a destinação de R$ 199.999,79 em recursos públicos por meio de uma emenda parlamentar de autoria do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para um projeto esportivo no Rio de Janeiro. As apurações apontam que a solicitação da verba foi tratada diretamente entre uma assessora do gabinete do parlamentar e Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe”, condenado pelo Supremo Tribunal Federal no processo relacionado ao assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

As conversas foram encontradas pela PF no celular de Calixto e fazem parte das investigações da Operação Emendatio, deflagrada em julho de 2026 para apurar um suposto esquema de desvio de recursos provenientes de emendas parlamentares destinadas a organizações da sociedade civil no Rio de Janeiro. A operação autorizada pelo STF cumpriu dois mandados de prisão preventiva e 21 mandados de busca e apreensão, além de determinar o bloqueio de até R$ 100 milhões em bens e valores.

Segundo a reportagem da revista piauí, Robson Calixto procurou, em outubro de 2023, Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora parlamentar lotada no gabinete de Flávio Bolsonaro, para pedir recursos para uma iniciativa esportiva. Nas mensagens, ele solicitou que a parlamentar verificasse com o senador a possibilidade de ajudar o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop). A assessora chegou a orientar Calixto a reforçar pessoalmente o pedido durante um evento em que Flávio estaria presente.

O pedido acabou relacionado ao projeto “Jogadores do Futuro”, desenvolvido pelo Ifop, na região da Taquara, Zona Oeste do Rio. Em 29 de novembro de 2023, o instituto recebeu exatamente R$ 199.999,79, valor vinculado à Emenda Parlamentar nº 92190012-2023, de autoria de Flávio Bolsonaro. A documentação pública do próprio instituto confirma a existência do Termo de Fomento nº 941246/2023, firmado com o Ministério do Esporte.

O valor, porém, não é o único recurso que aparece no radar dos investigadores. A emenda parlamentar citada nas reportagens alcançou aproximadamente R$ 599 mil no total. Além dos R$ 199.999,79 destinados ao Ifop, cerca de R$ 399 mil foram destinados ao município de Barra do Piraí, por meio de outra modalidade de transferência. A PF também examina essa movimentação dentro do conjunto de recursos relacionados às entidades investigadas.

Outro ponto da investigação envolve a execução dos recursos recebidos pelo Ifop. Um relatório técnico do Tribunal de Contas da União (TCU), elaborado em 2025, apontou problemas nas contratações realizadas com a verba. Entre os achados está a contratação de um escritório de advocacia para coordenar o projeto, sendo que o responsável pela empresa, José Rômulo Oliveira Alves, também era presidente do próprio instituto beneficiário. O TCU apontou uma possível situação de conflito de interesses e questionou a forma como determinadas contratações foram realizadas.

O TCU também identificou problemas nos procedimentos de cotação de preços, segundo a documentação divulgada pela piauí. A análise técnica apontou coincidências entre valores apresentados, ausência de concorrência efetiva e outros elementos que, na avaliação dos técnicos, poderiam indicar uma tentativa de conferir aparência regular aos procedimentos. Essas constatações fazem parte da apuração sobre a execução dos recursos e não significam, por si só, uma conclusão de responsabilidade criminal de Flávio Bolsonaro.

A relação entre a assessora e Calixto também continuou depois da liberação da verba. Em janeiro de 2024, Maria de Fátima pediu ao investigado quatro ingressos para um camarote no Carnaval do Rio de Janeiro. De acordo com informações divulgadas posteriormente pelo SBT News, a Polícia Federal classificou o pedido como possível “vantagem indevida”. As mensagens mostram que os convites teriam sido providenciados, embora não haja registro nos diálogos de que eles tenham sido efetivamente entregues à assessora.

Robson Calixto foi condenado pela Primeira Turma do STF, em fevereiro de 2026, a nove anos de prisão, por organização criminosa armada no âmbito do processo que apurou o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. A Corte também determinou a perda de seu cargo público. A condenação de Calixto foi por sua participação na organização criminosa, enquanto os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão foram condenados como mandantes dos homicídios.

Em nota, Flávio Bolsonaro afirma que a destinação da emenda ocorreu dentro da legislação e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte. O senador também declarou que a entidade responsável apresentou notas fiscais referentes às despesas e devolveu os valores que não foram utilizados. Segundo ele, eventuais irregularidades na execução devem ser apuradas pelos órgãos de controle e seriam de responsabilidade da entidade beneficiária.

A Polícia Federal ainda não apresentou uma conclusão definitiva sobre eventual responsabilidade do senador pelos possíveis desvios. A investigação permanece em andamento, com análise das movimentações financeiras, dos contratos firmados pela entidade e da relação entre os envolvidos. A própria PF informou que a Operação Emendatio busca identificar outros participantes, aprofundar a apuração financeira e recuperar eventuais recursos públicos desviados.

Por, Clóvis Kallycoffen (DRT:7412/DF)

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