📅 09 out 2026

Enviar

Exame de sangue capaz de identificar sinais de mais de 50 tipos de câncer começa a ser oferecido no Brasil

Exame de sangue Galleri para detecção precoce de mais de 50 tipos de câncer chega ao Brasil.

Uma nova tecnologia de detecção precoce do câncer começou a ser oferecida no Brasil e promete ampliar as possibilidades de identificação da doença antes mesmo do surgimento dos primeiros sintomas. O Galleri, desenvolvido pela empresa norte-americana GRAIL, utiliza uma única amostra de sangue para procurar alterações moleculares associadas a mais de 50 tipos de câncer.

O exame chegou ao país por meio da Genesis Genomics, empresa formada pelo Hospital Israelita Albert Einstein e pelo Grupo Fleury. A coleta pode ser realizada nas unidades das duas instituições, enquanto a análise do material é feita nos Estados Unidos. O resultado é previsto em aproximadamente um mês.

Como funciona o Galleri?

Diferentemente de exames genéticos tradicionais, que procuram alterações herdadas capazes de aumentar a predisposição para determinadas doenças, o Galleri busca sinais moleculares que podem estar presentes no organismo no momento da coleta.

O teste analisa fragmentos de DNA livre circulante no sangue, conhecidos como cfDNA. Células tumorais podem liberar esse material na circulação e apresentar padrões específicos de metilação, uma espécie de marca química que ajuda a diferenciar células cancerígenas de células saudáveis.

Quando identifica um sinal compatível com câncer, o sistema também pode estimar qual órgão ou tecido provavelmente está relacionado à alteração, informação que pode ajudar o médico a direcionar a investigação com exames de imagem, biópsias e outros procedimentos.

Tecnologia amplia investigação de tumores difíceis de rastrear

Um dos principais atrativos do Galleri está na possibilidade de investigar tumores para os quais não existem programas de rastreamento de rotina amplamente estabelecidos para a população geral.

Entre os tipos de câncer que podem ser identificados pelo exame estão sinais relacionados a pâncreas, fígado, ovário, esôfago, estômago, vias biliares, pulmão, intestino, mama, próstata, linfomas e mielomas, entre outros.

Segundo informações divulgadas pelo Fleury, dados clínicos indicam que 53,5% dos cânceres identificados pelo teste estavam nos estágios 1 ou 2, enquanto 74% dos casos detectados nesses estágios pertenciam a tipos de câncer que não possuem rastreamento recomendado para a população geral.

Exame não substitui mamografia, colonoscopia e outros rastreamentos

Apesar do potencial da tecnologia, especialistas reforçam que o Galleri deve ser utilizado como ferramenta complementar, e não como substituto dos exames de rastreamento já recomendados.

Isso significa que pessoas que realizarem o teste continuam precisando seguir as orientações médicas para exames como mamografia, colonoscopia, rastreamento do câncer do colo do útero e exames para câncer de pulmão quando houver indicação.

Outro ponto importante é que o exame não fornece um diagnóstico definitivo de câncer. Se houver detecção de um sinal suspeito, o paciente deverá realizar exames adicionais para confirmar ou descartar a presença de um tumor.

Da mesma forma, um resultado negativo não significa que a pessoa esteja livre de câncer, já que o teste pode não identificar determinados tumores, especialmente aqueles que liberam menor quantidade de material molecular na corrente sanguínea.

Quem pode realizar o teste?

No Brasil, o Galleri é direcionado principalmente a homens e mulheres com 50 anos ou mais, especialmente aqueles que possuem histórico familiar de câncer ou outros fatores de risco.

A realização depende de solicitação médica. Pessoas que não possuem pedido podem, segundo as informações divulgadas sobre a chegada do exame ao país, ter acesso a uma avaliação médica por teleconsulta para verificar a indicação.

O exame não é recomendado para gestantes, pessoas com menos de 22 anos e pacientes em tratamento oncológico ativo. Também há restrições relacionadas a pessoas que passaram recentemente por investigação ou tratamento de câncer.

Quanto custa?

O preço informado para o exame no Brasil é de R$ 6.990. O procedimento não faz parte, neste momento, da cobertura habitual dos planos de saúde, ficando o custo a cargo do paciente.

O valor elevado ainda representa uma das principais barreiras para uma eventual utilização em larga escala da tecnologia no país.

O que dizem os estudos?

Os dados disponíveis mostram resultados promissores, mas também indicam que o exame possui limitações.

Em estudos clínicos, o Galleri apresentou 99,6% de especificidade, o que significa uma baixa proporção de resultados falso-positivos entre pessoas que não tinham câncer. A empresa também informa uma precisão de 93,4% na identificação da provável origem do sinal cancerígeno em determinados grupos estudados.

A sensibilidade, entretanto, varia bastante conforme o tipo e o estágio do tumor. Em dados divulgados pela própria GRAIL, a sensibilidade geral para diferentes tipos de câncer e estágios foi de 51,5%, demonstrando que uma parcela dos casos pode não ser identificada pelo exame.

Resultados recentes do estudo PATHFINDER 2, publicado na revista Nature Medicine, também ampliaram o conjunto de evidências sobre segurança e desempenho do teste em pessoas com 50 anos ou mais.

Ao mesmo tempo, pesquisadores continuam avaliando uma questão fundamental: se a utilização desses exames realmente reduz mortes por câncer em larga escala. Estudos populacionais de longo prazo ainda são importantes para determinar o impacto definitivo da tecnologia na saúde pública.

Uma nova fronteira na medicina preventiva

A chegada do Galleri ao Brasil representa mais um passo no avanço dos chamados testes multicâncer de detecção precoce, que procuram identificar diferentes tumores a partir de uma única amostra de sangue.

A expectativa é que tecnologias desse tipo possam, no futuro, contribuir para encontrar determinados cânceres em fases mais iniciais, quando as possibilidades de tratamento tendem a ser maiores.

Por enquanto, porém, especialistas recomendam cautela: o Galleri deve ser encarado como uma ferramenta adicional de investigação, e não como um exame capaz de substituir o acompanhamento médico ou os métodos de rastreamento já consolidados.

Por, Clóvis Kallycoffen (DRT:7412/DF)

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE